2.12.06

 

“democracia que me engana,
na gana que tenho dela,
cigana ela se revela...”

por hugo fanton

O ataque midiático aos movimentos sociais se intensificaram neste final de semana, com ação do MST em um porto de Alagoas e conseqüente anúncio do Incra de que iria CUMPRIR um ACORDO estabelecido com o movimento. Rádios, TVs e jornais acusaram o governo Lula de ser parcimonioso no “combate” aos “criminosos” do MST.

A Folha publica em editorial deste sábado, 2 de dezembro, as seguintes frases:

“Sem o dinheiro do contribuinte, essa parolagem autoritária fazendo ode a um comunismo ludita estaria relegada ao limbo a que faz jus”.

O governo “premiou o ato delinqüente com a promessa de mais desapropriações e mais verbas, quando o seu dever, como órgão de Estado, era o de recusar-se a negociar sob pressão criminosa”.

Ora, tais palavras me lembram as acusações de que Lula quer controlar a imprensa com a campanha pela democratização da comunicação no Brasil. Dizem isso por considerarem a mídia democrática. Tal discurso uníssono contra ações políticas de movimentos sociais, bem como a criminalização destes, provam o óbvio: a comunicação no Brasil está muito, mas muito longe da democracia.

O que menos entendo é se a Folha, por exemplo, acredita no que fala. Ou melhor, se eles, de fato, pensam que seus leitores acreditam no que eles falam. A desonestidade é gritante. Num espaço de dois dias, um discurso que chama de autoritário um governo que prega a democratização e outro que criminaliza um movimento social. Discursos adotados por praticamente todos os jornais impressos, radiofônicos e televisivos.

A chamada grande imprensa continua adotando discursos discriminatórios, negando hipocritamente a falta de pluralidade nas coberturas jornalísticas no Brasil e tentam ainda esconder o óbvio de que as concessões públicas de rádio e TV, por exemplo, estão concentradas nas mãos de poucos grupos oligárquicos do país. Queria saber o que o manual de redação da Folha pensa disso tudo. Pena que, quando chamado, ele não vem à universidade debater. [r]

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16.11.06

 

só um devaneio

por hugo fanton

O poder de mobilização midiática na crise dos aeroportos brasileiros conduz meus pensamentos a lugares tortuosos. A cobertura impressiona pela intensidade e cobrança de resolução imediata. Jornais mobilizam grande quantidade de repórteres para mostrar o sofrimento dos pobres usuários dos aeroportos brasileiros.

Além de apontar os problemas, cobra do poder público uma solução rápida. De forma até louvável, incomoda, com microfones e holofotes, aqueles que têm responsabilidade nessa crise que atinge em cheio a classe economicamente mais favorecida do país.

Tal poder midiático me faz ter dessas reflexões que a vida de gado não nos permite ter. Penso mais naquilo que a imprensa deixa de fazer do que nos resultados de sua atuação na crise aérea. Digo isso por me perguntar como seria o Brasil se o mesmo número de profissionais fossem mobilizados para, diariamente, retratar o descaso com a população nas escolas e hospitais públicos, por exemplo.

Imagino, vendo todos os dias belas mulheres desmanchando a maquiagem na espera por um vôo, como seria se a maioria dos jornais do país, impressos e eletrônicos, dessem o mesmo espaço a um paciente na fila de espera do SUS. Imagino ainda se eles procurassem os governantes para responder, a cada atraso num atendimento médico (para ficar só neste exemplo), o porquê do problema e quando haverá uma resolução. E ainda cobrar os responsáveis várias vezes ao dia.

Como minha imaginação vai longe, chego a vislumbrar a explicação tecnocrata de que a crise aérea afeta fortemente a economia, a resposta hipócrita de que prejudica nossa imagem no mundo e todo esse blá, blá,blá que teima em não reconhecer a miséria e o descaso com a maior parte da população como os grandes responsáveis pelo não-desenvolvimento do país.

Por fim, tento imaginar a serviço de quem a imprensa trabalha. Quais interesses ela defende. Mas nesse ponto percebo que estou indo longe demais e posso ser acusado de autoritário e de trabalhar contra a liberdade de expressão. Afinal, como posso ousar criticá-la?

Percebo como os devaneios são perigosos.

E volto a ser gado. [r]

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21.9.06

 

a inquisição no século XXI

por hugo fanton

O recente debate acerca das declarações do Papa Bento XVI sobre o cristianismo e o islamismo lembra-me idéia de que pensamentos tidos como ultrapassados não só sobrevivem como podem ser dominantes numa sociedade, tendo nunca saído do meio acadêmico.

Antes de mais nada, o Papa errou ao não medir o impacto político de suas declarações. Não o fez por não ser político. E também por isso não retira suas palavras. Apesar de comandar uma religião criada a partir da vida de alguém que fora político, Jesus, Bento XVI desconsidera suas funções enquanto tal.

Entretanto, a reação do mundo cobrando desculpas de Joseph Ratzinger tem resquícios de um pensamento inquisidor da Idade Média, defendido outrora justamente pela Igreja Católica.

O discurso de Bento XVI feito numa universidade alemã foi direcionado a teólogos e trata justamente dodiálogo entre as religiões. O Papa expõe parte de sua filosofia sobre o tema, pensamento produzido após anos de estudo, publicado e discutido no meio acadêmico
teológico.

Quando o mundo islâmico exige a retirada de trecho da teoria filosófica de um teólogo sob a ameaça de morte e ataques a fiéis cristãos, pratica a mesma lógica da Igreja Católica medieval quando ameaçava punição severa a quem não retirasse de suas obras trechos considerados ofensivos.

Tal pensamento inquisidor é aplaudido pela maioria dos que maldizem o catolicismo de outrora. Muitos, ao invés de cobrarem dos muçulmanos leitura atenta do discurso de Ratzinger e chamá-los para o debate teológico, preferem comparar um tratado a uma charge preconceituosa.

Para entender a posição papal, basta a leitura do trecho final do discurso feito em Bonn:

"A declaração decisiva neste argumento contra a conversão violenta é isso: não agir de acordo com a razão é contra a natureza de Deus. O editor Theodore Khoury observa: para o imperador, enquanto um bizantino moldado pela filosofia grega, esta declaração é auto-evidente. Mas para o ensinamento muçulmano, Deus é absolutamente transcendente. A sua vontade não está presa a nenhuma das nossas categorias, mesmo àquela da racionalidade."

E continua:

"Neste momento, até onde diz respeito à compreensão de Deus e portanto à prática concreta da religião, nós estamos diante de um dilema inevitável. A convicção de que agir desarrazoadamente contradiz a natureza de Deus é meramente uma idéia grega, ou isso é sempre e intrinsecamente verdade?"

Ratzinger expõe uma diferença entre as teologias muçulmana e católica. Sua atitude, ao contrário de uma ofensa pura e simples, é a chamada para o debate teológico, para o embate de pensamentos. O confronto entre as idéias islâmica e católica de Deus.

Ao contrário de João Paulo II, que era político, Ratzinger não enxerga o diálogo entre as religiões
como o esquecimento das diferenças. O antigo Papa, em nome de uma política internacional, esqueceu punições corriqueiras aplicadas contra cristãos no mundo islâmico, bem como recusou-se a debater as diferenças teológicas. Já Ratzinger, enquanto teólogo, acredita
que diálogo entre religiões significa embate de idéias em busca do entendimento do que é Deus. O alemão está mais interessado em tentar descobrir em conjunto o que é Deus. Esse discurso não deveria então ser rebatido com bombas, mas com palavras.

Dessa forma, o pensamento inquisidor deveria dar lugar ao democrático. As sociedades, além de questionar um Papa que não tenha cumprido seu papel político, devem também questionar aqueles que se recusam a usar o debate como instrumento mais valioso na busca de uma verdade. [r]

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23.6.06

 

“a américa latina é o laboratório
dos países desenvolvidos”

por hugo fanton, desde frankfurt

Há um mês encontrei-me com um professor para entrevistá-lo. Atrasado, pedi desculpas e dei início à conversa, um tanto quanto envergonhado. Mas não houve problemas, já que o simpático peruano tinha muito a dizer. Minha tarefa era ter bastante atenção e registrar importantes palavras, que revelaram o pensamento alemão sobre a América Latina e trouxeram sugestões aos profissionais de comunicação, dentre outros assuntos.

Minha idéia inicial era fazer uma série de perguntas, mas isso não foi necessário. Bastou uma. Após cerca de três horas de conversa, fiz a segunda e última questão, dando-me por satisfeito. Poderia aderir a uma prática comum nas redações e fingir que fiz uma entrevista tradicional. Para isso, pegaria trechos da conversa e inventaria perguntas que não foram feitas. Seria mais fácil pra mim e rápido para o leitor. Entretanto, trata-se de um blogue, sem editor nem dinheiro envolvidos. Permito-me, então, cometer o absurdo de escrever dois parágrafos sem nem ao menos dizer o nome do entrevistado.

“Sou dos Andes peruanos, Jauja, a 3.320 m do mar. Em 1982, fui a Lima para estudar filosofia e teologia, pois queria ser sacerdote”, essa foi a primeira frase de Hugo Pariona, cientista adjunto (Wissenschaft mitarbeiter) da Johann Wolfgang Goethe Universität, de Frankfurt, que enfrenta a difícil tarefa de tornar a América Latina um assunto interessante para os alemães.

“Porém, não estava contente com a Igreja Católica peruana, muito conservadora, semelhante à época medieval, e desisti de ser sacerdote. Passei a estudar a educação. Cheguei a trabalhar como professor, mas meus métodos não agradavam e tive problemas em escolas peruanas. Então, vim pra Alemanha em 1992 e estudei por quatro meses. Conheci estudantes de direito, que viajaram comigo de volta ao Peru, onde permaneceram por seis semanas”.

Você, leitor, está lembrado daquele programa da TV Cultura: “Senta que lá vem história”? Após essas primeiras palavras percebi que o papo iria longe. Conferi o gravador, acomodei-me no sofá, deixei delado a relação de perguntas e anotei o que segue.

“Sofri um acidente de carro e fiquei em coma induzido, sete meses na cama. Os médicos disseram que tinha um tumor no meu cérebro, mas minha mãe não autorizou a operação. Resolvi ir à Alemanha após sugestão de um médico. Meus amigos aconselharam-me a viajar como turista e enviar documentos à faculdade, para conseguir visto de estudante e poder fazer todo o tratamento.

Aos poucos, aprendi a língua. Pude ingressar na Universidade e dar continuidade ao tratamento, que duraria mais de quatro anos. Entrei em psicologia. Fiz quatro semestres e desisti, pois tratava-se de umapsicologia muito experimental. Passei a estudar pedagogia e política. Interessava-me por ciência política para poder voltar e fazer política no Peru. O problema é que na América Latina, em geral, as pessoas não aprendem política para entrar na política. Elas têm dinheiro e isso as credencia para disputar o poder. Terminei o curso em cinco anos”.

Ao leitor que se empolgou, peço desculpas. Devo cortar o texto. O lado direito do meu cérebro manda que eu continue sem me preocupar com o restante do blogue. Mas devo conter-me em respeito aos outros textos. Na parte cortada, que este parágrafo substitui, o professor diz estar interessado por ecologia social e métodos de transdiciplinaridade.

“Passei a estudar métodos de comunicação, porque sofremos da falta de informação correta, de conhecimento. O problema na América Latina é que nos bombardeiam com informações que não são úteis, supérfluas ou não decodificadas. A maioria da população só tem acesso a notícias muito supérfluas ou muito complexas. Outro problema na América Latina é a existência de fronteiras não necessárias, que barram o fluxo do conhecimento entre os países”.


Novo corte. Pariona diz agora ter interesse em diferentes teorias, como a dos sistemas, que sugere o transporte dos métodos das ciências naturais, sobretudo, às sociais. Além do estudo dos sistemas de relações internacionais.

“O Brasil é um jogador adequado no mundo. Econômica e cientificamente é o único na América Latina que pode competir com o restante do planeta. Precisamos trabalhar com outros conceitos na América Latina, que tratam de interdependência. Mas não como os países industrializados, que trabalham com interdependência apenas econômica. Um novo conceito abrangendo cultura, política e área social.

Interesso-me, principalmente, pela teoria da democracia e processos de democratização. Isso supera conceito de desenvolvimento. Os países ricos têm sistema democrático que funciona. Devemos medir processos que possam nos levar a ter sistema que funciona. Disso virá o desenvolvimento. Apesar de termos meios adequados, na América Latina tudo ocorre de forma muito lenta. Há pensamento de que se economia não funciona, não há desenvolvimento”.

Sugiro agora ao leitor que preste bastante atenção nas palavras que seguem. Nunca enxerguei nossas “resoluções” com esses olhos. Lá vai:

“As pessoas não percebem que já tentamos de tudo. A América Latina é a região dos experimentos. Muitos teóricos dizem isso aqui. Trata-se da região em que os países desenvolvidos experimentam algo que não podem testar em seus países. É o laboratório dos países desenvolvidos. E a América Latina não aprende, não vê que já tentou de tudo. Procura sempre novos princípios econômicos. Mas não se dá conta de que é a democracia, são as instituições que garantem as regras do jogo, para todas as partes do sistema – ecologia, política, trabalho, etc.

Devemos criar uma base. O mundo desenvolvido, antes de tudo, se dedicou à democratização. Na América Latina só podemos apontar duas democracias consolidadas: Uruguai e Costa Rica. Quem diz isso são teóricos da democratização, apoiados em critérios políticos adequados.

Apesar de há 20 anos ter ocorrido a abertura democrática, o Brasil, por exemplo, ainda convive com máfias que se organizam contra o sistema policial. O Estado de Direito funciona em certa medida. O sistema democrático não consolidou-se. Os políticos do Brasil não têm uma carreira dentro de seus partidos, que tenham se legitimado na sociedade. Mas apenas representantes de interesses próprios. Alguém que paga a própria campanha e vence a eleição. Parlamentares que são ao mesmo tempo donos de empresas, fábricas, grandes fazendas e meios de comunicação. Há eleição e processos democráticos, mas falta legitimação”.


Neste momento há uma pausa. Não na conversa, mas na argumentação, que passa à identificação mais detalhada de nossos problemas, introdução no tema “imprensa” e apontamentos de possíveis soluções. Devido ao tamanho, corto aqui a primeira parte e, na próxima semana, publico o restante. [r]

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18.6.06

 

três histórias de copa do mundo

por hugo fanton, desde frankfurt

O susto

Estrondo. Gritos. Acordo assustado, sem distinguir ao certo sonho e realidade. Hesitante, caminho à minha janela. Abro a cortina e me deparo com a morte. Desde que cheguei emFrankfurt, ouço histórias de pessoas que se suicidam na moradia de estudantes. Parece ser tradição por aqui.

De longe, o rosto transmite uma incompreensível paz. São instantes eternos em que minha alma é bombardeada por todo tipo de sentimento. Meu espírito sofre por não saber qual pensamento ou reação trará a paz que a instantes tinha em meu tranqüilo sono.

Simplesmente não sei no que pensar. Não faço idéia de como decifrar um enigma que pode nem mesmo existir. Continuo a olhar o corpo. Algumas pessoas caminham como se não houvesse nada no local. É a vida, que teima em enfrentar a morte.

A polícia chega.

Hoje tem estréia do Brasil na Copa. Ao voltar da magra vitória por 1 a 0, passo pelo local. Há velas e flores. Faço o sinal da cruz e lembro que vivo. Ou o contrário. Essa tal de Copa me faz esquecer obviedades. E a vida se encarrega de me lembrar.
Vivo.


As crentes

Preguiça. Hoje verei o jogo na casa do Thiago. Estou cansado de ir ao telão. Paro no ponto do metrô de rua e ouço minha língua. Penso que o maior choque ao voltar ao Brasil será ouvir pessoas falando português ao meu lado.

- Não caso com alguém sem Deus.
- Mas é tão bonito converter um namorado.
- Mas a pessoa precisa ter o chamado. Namorar alguém sem o chamado é impossível.
- Já namorei um cara que não estava com Deus. Mas ele me respeitava.
- A própria bíblia diz pra não se misturar.
- Mas ela está falando dos judeus, é outra história.
- É, mas pra mim tem que ter o chamado.

O assunto muda. Passam a falar da beleza dos alemães.
Entro no metrô. Em cinco minutos estou no destino. Desço acompanhado pelas brasileiras. Dirijo-me à primeira televisão para ver se o jogo começou. México e Angola 0 a 0.
- Você é brasileiro?
- Sim.
- Vimos seus traços. Então você ouviu tudo o que a gente falou?
- Sim.
- Ai, que vergonha.
- Vocês moram aqui?
- Não, somos missionárias. Viemos fazer um trabalho aqui na Copa.
- Que legal. Interesso-me bastante por religião. Que tipo de trabalho estão fazendo?
- Temos uma barraca nas margens do rio e atendemos as pessoas. Se der, passa lá pra visitar a gente.
- Claro.

A idéia de Deus me domina por instantes. Lembro-me que não fui à missa no último domingo. No próximo, tem jogo do Brasil com a Austrália.
Será que o México fez um gol?
E, assim, as idéias vão se transformando...


O humorista

Acordo. Desta vez sem barulhos. Ligar o computador é, como sempre, meu primeiro ato do dia. Ao procurar as últimas notícias da Copa, deparo-me com a Morte. Ou é a Vida? Meus pais são os primeiros a vir à mente. E a idéia de Deus volta. Mas por instantes.
Lembro-me de uma conversa que tive ainda quando criança. Meu irmão me dizia que o Bussunda era inteligente e entendia de política.
- Jura, Dan?
- Claro.

E o mundo mudou. Impressionante como o mundo da criança muda. A cada descoberta, uma nova pessoa surge. Novos parâmetros. Quando será que a gente perde esse magnífico poder?

A Morte desnuda a Vida.
A incompreensão volta.
Sinto Deus. E tudo o que eu queria era saber se o Ronaldo tinha treinado bem... [r]

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9.6.06

 

altos e baixos de um furão
ou às margens da alegria

por hugo fanton, desde frankfurt

Um dia em que aconteceu de tudo. Conversas com ídolos, ameaça de prisão, uma negativa desoladora e uma meta atingida. Vivi muitas horas de briga entre a tristeza e a alegria, entre meu lado profissional e meu lado torcedor.

Quarta-feira fui à Königstein com uma grande esperança: conseguir uma credencial para cobrir os treinos do Brasil. Estudante de jornalismo que sou, gostaria muito de participar da cobertura da Copa. Torcedor fanático, queria ver os craques da seleção de perto.

Assim que cheguei, os representantes da cidade me informaram ser o Rodrigo Paiva, assessor de imprensa da CBF, o único que poderia me dar a credencial. Fui, então, ao centro de treinamentos do Brasil à procura do assessor. Tentei entrar no local reservado a jornalistas, mas os seguranças me barraram. No caminho de volta, encontrei Tostão, para quem pedi, sem sucesso, o telefone de Paiva. Minha última tentativa na entrada principal foi o Fernando Calazans.

Muito solícito, o colunista chegou até a pegar um papel com meu telefone, para entregar a Paiva. Saí de lá extremamente agradecido pela disposição do Calazans, mas certo de que não receberia a ligação.

Ao deixar a entrada principal do centro de treinamentos, parecia que a sorte voltara. Encontrei uma grade aberta, sem policiais por perto, e rapidamente entrei. Havia mais barreiras à frente, porém já bem perto dos jogadores. Cheguei ao lado oposto da zona mista, onde os craques da seleção davam entrevistas. Nesse momento, o Hugo jornalista simplesmente ignorava o torcedor. Estava com o ídolo Ronaldinho na frente, mas apenas gritava: Rodrigo Paiva, Rodrigo Paiva!

Não consegui falar com o assessor. Andei, então, pela escola que contorna o CT e achei um último portão aberto, já no gramado. Entrei, mas um cachorro me denunciou. Cerca de cinco policiais vieram correndo me pegar e continuei caminhando, como se nada estivesse acontecendo. Fui parado já próximo dos jogadores. Dessa vez, não tinha conversa. Os seguranças acionaram a polícia para me prender.

Já nervoso, gritei pelo nome de Paiva, na última tentativa de conseguir a credencial. E, como que por milagre, fui atendido. Entretanto, o golpe final no meu sonho de jornalista veio com a resposta: “Não posso te arrumar a credencial. Faria alguma coisa se pudesse te ajudar”.

“Você pode me ajudar, sim! Não deixa me prenderem, por favor!”, respondi.

Paiva, além de me livrar dos policiais, disse que eu poderia ver o treino. Sentado no melhor lugar da arquibancada, meu lado torcedor não conseguia vencer a batalha contra meu lado jornalista. Assisti triste à apresentação dos jogadores, lamentando estar de fora do Mundial.

O mais interessante era que eu, sem credencial, estava no melhor lugar para ver as movimentações. Pela proximidade com o campo e pelo silêncio (estava só, apenas com alguns funcionários da CBF) pude ouvir até as conversas dos jogadores.

O ambiente da seleção pareceu ser o melhor possível. Durante todo o treino ouvi brincadeiras entre as estrelas do Brasil. Ronaldo e Adriano faziam piadas entre si e com Júlio César. Certa hora, Ronaldinho deu um passe bem longo a Cafu, enquanto outros jogadores gritavam: “é um garoto”, “olha como corre”. Já Robinho, ao sair do treino, desafiou Roberto Carlos a enfrentar suas famosas pedaladas. O lateral fugiu do desafio ouvindo gritos de “arregão” vindos dos jogadores que faziam alongamento.

Ronaldo foi um dos primeiros a sair de campo. O Hugo jornalista voltou à tona e fiquei na esperança de entrevistá-lo. Foi aí que aconteceu o mais interessante. A presença do ídolo trouxe a intimidação que muros, seguranças e policiais não tinham despertado em mim. Estava decidido a falar com o jogador, mas o Hugo torcedor dizia: é o Fenômeno. Isso me intimidava.

Ouvi, então, o craque comentar com assessores que não estava com muita vontade de dar entrevistas. Foi o suficiente para o fã vencer a batalha psicológica e eu desistir. Antes de ele sair, ainda falei:

- Ô Ronaldo, essa Copa é sua, você vai arrebentar!

- Obrigado, respondeu.

A alegria de um torcedor voltara. Vi todos os jogadores passarem a poucos metros. Quando o treinador chegou perto, perguntei:

- Depois da Copa vai pro Timão, né Parreira?

- Vamos ver - disse sorrindo o comandante da seleção.

Ao deixar o local, bastante contente por ter conversado com ídolos, um assessor de Paiva me disse para não voltar a fazer aquilo. O “jornalista” frustrado voltara a dominar meu ser. Assim, as duas faces de uma mesma pessoa seguiam numa eterna briga. O torcedor triunfante e o repórter que falhara disputavam por qual sentimento me dominaria. Até eu encontrar o editor do saite Trivela.com, Carlos Eduardo Freitas, para quem contei meu dia. Freitas insistiu que eu não deveria ficar triste, já que tinha uma boa história. “Era, outra vez, a alegria”. [r]

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5.6.06

 

copa no brasil? não!

por hugo fanton, de frankfurt

Muito se fala na possibilidade de o Brasil sediar a Copa do Mundo de 2014. Estou há oito meses vivendo na Alemanha e sinto-me seguro em afirmar: é absurda a idéia de organizar o evento no País.

Falo isso por não possuirmos instituições sólidas, não vivermos em uma democracia consolidada e, como conseqüência, não respeitarmos direitos mínimos de nossos "cidadãos".

Os alemães, antes de tudo, confiam em suas instituições. E isso é a base de tudo. Na organização da Copa, não estão em jogo apenas a capacidade de construir excelentes estádios, ter boa infra-estrutura de transportes e manter a segurança. Mas de garantir que seus cidadãos continuem a viver num Estado de Direito. Que educação, saúde e outros serviços públicos não sofram qualquer abalo. Isso é uma certeza aqui, pelo simples fato de serem sólidas as instituições que governam o País.

E é aí que está nosso grande problema. Não temos isso com ou sem Copa. Vivemos uma crise que mostra toda podridão do nosso sistema político partidário. Executivo, Legislativo e Judiciário mostram-se incapazes de garantir direitos básicos da população que, desconfiada, não acredita em algo que nem ao menos entende.

Onde não há confiança sequer nos três poderes republicanos, o que dirá num possível "Comitê Organizador da Copa"?

Antes de sair aos quatro cantos do mundo, apoiado por governistas e oposicionistas, defendendo a candidatura do Brasil ao Mundial, o presidente Lula deveria esclarecer que não só estamos despreparados para receber bem o mundo, como não conseguimos sequer garantir direitos básicos de nossa população.

Participei de uma entrevista com um secretário de governo alemão mostrando que o direito dos alemães de andar em ruas limpas seria respeitado durante a Copa. Parece até piada...

Um Brasil que criminaliza movimentos sociais, impede o cidadão de sair às ruas e reivindicar aquilo que o Estado lhe deve, onde a polícia bate em manifestante e faz "justiça" com as próprias mãos, tem condições de entrar na discussão de como evitar terrorismo internacional, por exemplo?

Entretanto, o debate em torno do tema é, como sempre, superficial. Fala-se de construção de estádio, onde não há escola. Respeito ao turista, onde não há cidadania. Da mesma forma que a reflexão em torno do escândalo do mensalão resume-se a saber o quão corrupto é o PT ao invés de o quão democrática é a sociedade.

A Copa do Mundo no Brasil é mais um faz-de-conta nacional. Fazemos de conta que somos uma democracia sólida apesar de a população não entender o que lê, de pouquíssimos saberem o que é representação política, de a compra de votos no congresso já ser institucionalizada por meio da liberação do orçamento (algo que Lula e FHC fizeram sem problemas), etc.

Do mesmo modo, fazemos de conta que podemos pleitear o Mundial. Mostrar porque não temos direito de sediar a Copa não interessa ao governo, oposição e mídia. Pois, para isso, teríamos que colocar em dúvida todo um sistema. Trava-se, então, um debate simplista.

É falado que não há dinheiro, estádio, transporte, etc. Está na hora de revelar ao povo que não há democracia. Que o sistema é podre e precisa ser mudado. Desejam organizar a Copa num Estado desprovido de qualquer instituição sólida e confiável. Querem convidar o mundo a visitar um povo que tenta sobreviver, miseravelmente, neste território a que chamamos de Brasil. [r]

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4.5.06

 

mas pode isso?

por hugo fanton, em frankfurt

Outro dia, uma professora perguntou-me sobre a vida no interior do Brasil. Após minutos de conversa, entrei no tema da concentração fundiária. Ao dizer que algumas poucas pessoas dispõem de áreas enormes no campo e mesmo assim não produzem, fui questionado:

– Mas pode isso?

Poucas vezes na vida fiquei tão embaraçado com uma pergunta tão simples. Com meu alemão ainda meio capenga, procurei as melhores palavras para esclarecer. E não fui feliz.

Citei impunidade, o valor imobiliário dado à terra, questões históricas e tradicionais, dentre outras explicações, e mesmo assim a alemã não entendia o fato. Falei novamente, como uma criança, já meio sem convicção, perguntando-me se dizia bobagens:

– Existem pessoas com uma fazenda bem grande, mas que não plantam. Por isso tem um grupo que quer a divisão dessas terras, já que muitos não têm o que comer nem onde trabalhar.

– Mas pode isso? – novamente a pergunta.

A vergonha foi grande. Outros alunos presentes na sala olhavam-me esperando a resposta. Não sabia direito o que falar. Todo o sentimento nacionalista que nos toma ao sair do Brasil transformou-se num forte e triste peso. Pela primeira vez na vida, tive uma realidade tão dura jogada na minha cara.

Foi notório que a professora não entendia um fato desse acontecer sem que houvesse forte mobilização social. Mobilização social não apenas de um grupo, mas de toda a nação que, pasma e inconformada, não aceitaria o fato. Afinal, "isso" não pode. Mas no Brasil pode...

Na cabeça dela, essa realidade não seria aceita pelas pessoas. Para a alemã, fosse assim, já teria ouvido falar de algo como que uma revolução social no Brasil.

Não consegui mais prestar atenção na aula.

“Mas pode isso?”

A frase martelava na minha cabeça. Era tão simples, tão lógico e tão triste. Dei-me conta de como aceitamos injustiças e vivemos nossa vida sem dar atenção aos absurdos que nos rondam.

Sempre defendi a reforma agrária, distribuição de renda, universalização de uma educação de qualidade e tantos outros temas necessários para acabar com a enorme desigualdade social brasileira.

Contudo, pela primeira vez na minha vida, percebi de fato o quão injusta e absurda é a realidade do país. Uma realidade, sempre presente em minha mente, foi como que exposta em sua vertente mais dura e chocante. A simplicidade da pergunta desnudou uma nação cega, que não é capaz nem mesmo de responder:

“Mas pode isso?”
[r]

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3.5.06

 

primeiro de maio: alemanha

por hugo fanton, em frankfurt

A tradicional passeata de Frankfurt em comemoração ao dia do trabalho contou com a presença de sindicatos das mais variadas áreas. Juntos, protestavam por melhores salários.


O grande tema da agitada manha em Frankfurt foi a exigência do estabelecimento de um salário mínimo - inexistente na Alemanha - de 8 euros a hora. A Campanha é encabeçada pelo partido Die Linke (A esquerda).

A grande maioria dos presentes eram imigrantes, com destaque aos turcos. Os estrangeiros são os mais afetados pelo desemprego e subemprego.

Manisfestantes dirigem-se ao centro da cidade. Imagem clássica de Che Guevara é a mais constante nas camisetas e bandeiras.

Em palco montado em frente à prefeitura, líderes sindicais e partidários discursam pedindo pelo salário mínimo de 8 euros/hora, convivência pacífica entre as diferentes etnias e melhores condições detrabalho, dentre outras reivindicações.

No detalhe, cartaz colocado em cima dopalco lembrando o tema da Copa do Mundo. Manifestantes pediram jogo limpo no mercado de trabalho. [r]

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14.4.06

 

direita e esquerda: proposta de debate

por hugo fanton

Em época de eleição, a imprensa sempre inicia um debate: quem é esquerda e quem é direita. Normalmente, acusa o PT de não mais defender uma antiga ideologia. Mas, infelizmente, não oferece ao público ferramentas necessárias para julgar esse tipo de informação.


Reclama da falta de ideologia no debate político dos candidatos, mas não se propõe a discutir ideologia. Não é dado ao eleitor a possibilidade de concluir quem é direita ou esquerda, pelo simples motivo de que nem mesmo quem trabalha na imprensa reflete a teoria política.

Minha proposta com esse texto é iniciar um debate necessário em busca de conceitos hoje muito nebulosos, devido à falta de material midiático e à não correspondência na prática daquilo que a teoria nos ensina.

Basicamente, o que a direita defende é desenvolvimento garantido pela menorparticipação possível do Estado na economia. O mercado deve gerar, livremente, riqueza à população. A felicidade do povo é dada pela combinação de menos impostos às empresas e fluxo financeiro internacional garantido pela responsabilidade governamental (ou seja, pagar todas as contas). Isso geraria riqueza às empresas, que crescem, criam empregos e, com isso, todos ganhariam.
Seria como a classe detentora do poder político-econômico dizer: deixem-me crescer que eu carrego o resto, mesmo que esse resto tenha condições mínimas de vida. Esse conceito é resumido pela famosa frase de Delfim Neto: primeiro, devemos fazer o bolo crescer, para depois repartí-lo. É desigual, mas todos consomem, fim máximo de uma sociedade capitalista. Eu consumo, logo, existo.

Segundo a direita, a quebra desse fluxo prejudicaria as duas pontas. Seria algo como: melhor meia dúzia de ricos, que por um suposto mérito teriam chegado à riqueza, e um povo que miseravelmente sobrevive, do que todos mortos.

Melhor todos consumindo, mesmo que alguns comprem pouco, muito pouco, do que ninguém. E, assim, o capitalismo é mantido com toda sua força. A ideologia direitista e o sistema em que vivemos se completam, se consomem, e de mãos dadas carregam o mundo desta maneira injusta em que vivemos. O capitalismo se alimenta da desigualdade e o argumento do mérito, muito utilizado pela direita, dá o embasamento ideológico necessário para a manutenção do sistema. Ambos se completam perfeitamente. A teoria esquerdista, ao defender a atuação forte do Estado na economia, para garantir a todos igualdade de condições, uma vida digna, quebra essa ligação entre ideologia e sistema. Propõe igualdade num mundo que pede por desigualdade. E o grande erro dela, no Brasil de hoje, é acreditar que pode conviver com o capitalismo. Tenta conviver e ao mesmo tempo implantar sua visão de mundo antagônica ao sistema. Mas não sobrevive porque não é a melhor opção para o funcionamento do capitalismo.

O pensamento de esquerda tenta lidar da melhor maneira possível com um sistema injusto. O PT ainda é esquerda por acreditar na força do Estado na promoção de justiça social. O grande erro é crer que pode lidar com o sistema. Para isso, o partido faz concessões e corrói seu próprio pensamento. Descobre que nada como ser de direita para lidar com o capitalismo e, assim, se deixa influenciar.

A teoria de esquerda não é vivida em sua totalidade e, por isso, se corrói. Pensamento, discurso e ação ficam desconexos. Com isso, é criado um programa social de transferência de renda, mas continua sendo paga uma dívida injusta. Não há privatizações, porém mantém-se juros altos. E por aí vai... A esquerda passa muito tempo buscando soluções para conviver com um sistema criado e mantido pela direita. Busca alternativas dentro de um sistema que já tem na direita seu embasamento intelectual.

A resposta seria criar algo novo. Admitir isso é muito difícil, pois ao fazê-lo coloca-se a um passo de pegar nas armas. Admitir isso é pedir revolução. Por isso, a esquerda brasileira não admite e tenta, agonizante, conviver com o sistema e buscar alternativas dentro do capitalismo. A direita, por sua vez, continua a gozar dos privilégios que o capitalismo lhe dá. E, na ponta de tudo isso, está a grande maioria da população que, faminta, se sente saciada por um crediário nas Casas Bahia. Faminta, ainda consome. E, dentro do sistema, existe.

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